Braços Empenados Tem Solução

Braços Empenados Tem Solução




Neste artigo, vamos abordar um tema bastante presente na vida de quem toca contrabaixo: braços empenados ou torcidos.

Por estatística pessoal, diria que 70% dos baixistas sofrem deste problema, seja em pequena proporção ou até tão seriamente que o instrumento fica inutilizável. Este inconveniente ocorre, principalmente, por falta de manutenção periódica. Regulagens completas anuais, pequenas correções na concavidade do braço a cada trimestre e ajustes no tensor sempre que a tensão das cordas for alterada são algumas das medidas que garantem uma conservação adequada do equipamento.

Muitos baixos já saem da fábrica com este tipo de defeito, que se torna cada vez mais evidente à medida que o braço vai sendo utilizado. O problema é que este empenamento ou torção aumenta a ação das cordas — e não é possível abaixá-la, pois, se isto for feito, o instrumento começa a trastejar — e causa oscilações e discrepâncias na afinação ao longo da escala, dentre outras imperfeições. Em suma, compromete bastante a qualidade do material. Este mal, entretanto, tem cura! 
Primeiramente, vamos entender o sentido do termo “empenamento”. Considera-se que um instrumento apresenta tal característica quando o arqueamento do braço está côncavo ou convexo em grau tão extremo que a falha não pode mais ser corrigida pelo tensor. Isso é provocado por várias situações: falta de ajustes preventivos, exposições a altas temperaturas, fabricação ruim ou uso incorreto dos acessórios. 
Um braço é tido como torcido se o arqueamento na parte das cordas graves (Mi e Lá, no caso de um baixo de quatro) não coincidir com o das agudas (Sol e Ré). Neste caso, o ajuste no tensor é inócuo, já que, quando se tenta corrigir a concavidade de um dos lados, o outro se torna convexo. Este defeito é mais fácil em instrumentos que trazem dois tensores. 
Outro motivo para o surgimento deste problema é a forma displicente com que muitas pessoas acomodam o instrumento quando não o estão utilizando. Não podemos, por exemplo, deixá-lo por muito tempo descansando, sem nenhum apoio sob o braço. Pior ainda é quando o músico o transporta no porta-malas em um ambiente de temperatura alta — se o automóvel permanecer aproximadamente uma hora sob o sol, este compartimento vai ter calor três vezes maior do que na rua, causando empenamento ou torção do braço. Caso o equipamento seja construído com madeiras húmidas, a ação do tempo pode ser responsável pela aparição deste tipo de inconveniente. 
Na verdade, é quase impossível evitar que, um contrabaixo apresente torção em seu braço. Precisamos ter muito esforço e cuidado para retardar este processo. Pense em um instrumento de cinco cordas. Nele, Si e Mi exercem tensão na lateral superior da régua superior à que Ré e Sol desempenham na inferior. Como resultado, se não houver dois tensores, o defeito irá surgir. O ideal é que a torção ou o empenamento exista de forma moderada após alguns anos de uso, quando já for necessária a troca dos trastes por desgaste - então, o luthier aproveita para também corrigir esta deformidade. 
A seguir, vou descrever procedimentos utilizador por mim e outros colegas para resolver tais falhas. Quero deixar claro que as soluções propostas não são as únicas possíveis, mas a idéia principal, independentemente da forma de trabalho, é uma só: tornar a escala novamente plana. Este processo, aliás, também é indicado quando se pretende trocar trastes gastos ou muito amassados. 
Neste tipo de conserto, a primeira atitude é extrair os trastes do instrumento com cuidado para não lascar a escala. Para isso, o luthier os aquece — cada profissional pode utilizar um método diferente, como ferro de solda e soprador térmico — e retira, com auxilio de um formão (foto 1) ou qualquer outra ferramenta que sirva como alavanca. O próximo passo é lixar a escala levemente, apenas para eliminar possíveis imperfeições deixadas pelo processo anterior. Em seguida, com o auxílio de uma régua ou por meio da verificação visual das laterais do braço (foto 2), detecta-se o grau de empenamento ou torção a fim de ajustar o tensor adequadamente. É importante frisar que só um luthier experiente consegue perceber visualmente estas variações. 
Começa-se, então, a aplainar a escala. Vários tipos de ferramenta podem ser empregados nesta operação, mas prefiro usar uma prancha de compensado muito bem alinhada, revestida de fórmica nos dois lados. A abrasividade da lixa depende do tamanho da irregularidade: em média, costumo usar os modelos de números 36 e 80, respectivamente. Não se deve desgastar a escala ininterruptamente por muito tempo, pois o calor gerado em decorrência do atrito pode empenar a escala (foto 3). De tempos em tempos, deve- se checar se o problema está sanado. 
Nas vezes em que realizo este trabalho, normalmente deixo o braço no mínimo reto e com o tensor totalmente solto, pois, quando afinadas, as cordas já possuem tensão suficiente para tornálo côncavo. Se, após ser lixado, o braço ainda estiver escalopado, a força exerci-da pelo encordoamento pode obrigar o tensor a atuar praticamente no limite. Por isto, em alguns casos, prefiro deixá-lo um pouco convexo. Assim que o sucesso da operação for comprovado, o Iuthier refaz o abaulamento da escala (radius) (foto 4), que às vezes retirado por completo em razão do uso da lixa no processo anterior. 
Na seqüência, com o auxilio de lixas finas de números 100, 180, 220 e 600, os riscos da escala são retirados (foto 5). 
O Iuthier reabre, cuidadosamente para não riscar nem arranhar o braço, as cavidades destinadas aos trastes, utilizando uma serra normalmente destinada para esta finalidade (foto 6). Os novos trastes são encaixados com o auxílio de um martelo de plástico rígido (foto 7) e desgastado lateralmente por uma lima de superfície chata de média abrasividade (foto 8). Esta etapa é importante e deve ser feita com muita atenção, pois qualquer falha pode danificar o instrumento de maneira irreversível. 
A seguir, os trastes são colados na escala com uma seringa de vidro e agulha (foto 9) ou com o próprio tubo de uma cola adesiva de média aderência (foto 10). Daí, um pequeno fret work deve ser feito para corrigir irregularidades que tenham surgido após a retífica da escala e o assentamento dos trastes. Finalmente, o baixo é montado e cordas novas são colocadas, fazendo-se as regulagens necessárias. 

fonte: Edmar Luighi, músico e luthier profissional